Pacientes oncológicos enfrentam desafios educacionais na primeira infância
Foto: Arquivo pessoal
Em um país que ainda enfrenta desafios
na defesa dos direitos da primeira infância, o pequeno Danilo Souza Reis, de
seis anos, vive uma realidade sensível e vulnerável ao seu desenvolvimento.
Antes de aprender a formular corretamente as palavras, ou até mesmo escrever o
seu próprio nome, ele aprendeu a escolher fantasias para enfrentar a
quimioterapia.
Diagnosticado
com Leucemia Linfóide Aguda, tipo B, quando tinha apenas três anos, os momentos de escolha dos próximos
figurinos tornaram o tratamento mais leve e divertido, transformando cada ida
ao hospital em uma aventura.
De
acordo com sua mãe, Anagel Belmira de Souza, antes do diagnóstico precoce do câncer, Danilo levava uma vida como
toda criança merece nessa fase: com brincadeiras, passeios e introdução ao
ensino escolar. Com a descoberta da doença, tudo mudou. As limitações
acompanhando o tratamento o fez deixar a escola. As brincadeiras e passeios
precisaram se adaptar à nova rotina da família.
“O
que realmente ajudou Danilo foram as fantasias, deixou ele feliz. Decidimos
juntos qual fantasia comprar e usar, rimos muito. Nas idas ao hospital
fantasiados, recebemos o carinho e apoio das pessoas que passam a conhecer a
história dele”, destaca Anagel.
O
pequeno Danilo representa as muitas crianças que precisam se adaptar a uma
sociedade que permanece despreparada diante das urgências da primeira infância,
em especial aquelas que fazem tratamento prolongado devido a alguma doença.
Conforme
o estudo “O impacto do desenvolvimento na primeira infância
sobre a aprendizagem”, elaborado pelo Núcleo Ciência Pela Infância —
coalizão voltada à produção e disseminação de conhecimento científico para fortalecer políticas públicas e práticas
voltadas à primeira infância —, os primeiros anos da vida são fundamentais para
o desenvolvimento de uma criança. É nesse período que se formam as bases
neurológicas, emocionais, cognitivas e sociais.
Nessa
fase, o cérebro cria conexões neurais em altíssima velocidade, chegando a 700
novas conexões por segundo, em algumas regiões cerebrais. Elas se fortalecem ou desaparecem conforme os estímulos recebidos. Desse modo, quando há interrupções nesse processo, não
é apenas o presente que está sendo afetado, pois os impactos tendem a ser
cumulativos e podem acompanhar o indivíduo até a vida adulta.
De
acordo com a pesquisadora e professora Alicia Matijasevich, do Departamento de
Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da Universidade São Paulo (USP), é
essencial, mesmo em contextos
de tratamento de saúde, manter estímulos
pedagógicos e sociais, porque essas interações contribuem diretamente para o bem-estar emocional da criança, ajudando a
reduzir o estresse e a ansiedade associados ao tratamento e preservando a
sensação de normalidade.
“O brincar é a principal forma de aprendizagem na infância e também um
meio importante de expressão emocional. A interação social estimula o
desenvolvimento cognitivo e emocional, e a manutenção de alguma rotina traz
previsibilidade e segurança para a criança, o que é especialmente importante
durante períodos de adoecimento”, destaca Alicia Matijasevich.
Educação em meio ao tratamento
Além
das limitações impostas por internações, imunossupressão, consultas frequentes
e efeitos adversos do tratamento, também podem surgir repercussões emocionais,
comportamentais e cognitivas, o que exige que o cuidado vá além da doença e
considere o desenvolvimento completo da criança.
“Ao
cuidar da infância, é importante que se olhe para a criança com muito
respeito, sensibilidade e ética. Esse olhar precisa estar atento à
ludicidade e aos recursos adequados para a faixa etária, para permitir que a
criança tenha a oportunidade de
continuar brincando da forma que for possível”, destaca a psicopedagoga Camila
Aquino, do Instituto do Câncer Infantil.
Em
Salvador (BA), algumas iniciativas já incorporam ações de humanização, apoio
psicossocial, atividades lúdicas, classe hospitalar, acompanhamento
multiprofissional e atenção à família. O exemplo disso é a atitude da
Secretaria Municipal de Educação de Salvador, que instaurou a Escola Municipal
Hospitalar e Domiciliar Irmã Dulce (EMHDID).
Segundo a gestora
da Escola Municipal Hospitalar e Domiciliar Irmã Dulce, Maria Iris Dias de
Souza, o trabalho é realizado por professores e coordenadores pedagógicos. O
objetivo é garantir a escolarização de estudantes hospitalizados ou em atendimento domiciliar, inclusive
daqueles vinculados às escolas de origem.
No momento, o programa conta com 20 professores atuando com atendimento
especializado dentro de hospitais, casas de apoio, casas lares e domicílios. Em
2025, foram registrados 580 atendimentos. As atividades escolares oferecidas
atendem crianças a partir dos 4 anos de idade.
Para
a professora Roberta Sanches, da EMHDID, brincar não apenas faz parte como
também é o eixo estruturante do processo pedagógico.
“O
que me marca é a resiliência e a capacidade de descoberta. É simplesmente
encantador e emocionante observar como, diante de tantos desafios, limitações e
privações, as crianças mantêm viva sua curiosidade intelectual. No momento em
que a criança, em tratamento oncológico, realiza uma nova descoberta é carregada de
simbolismo, representando uma vitória da vida e do desenvolvimento”, destaca.
Entre avanços e obstáculos
Entre as instituições atendidas pelo programa, está o Grupo
de Apoio à Criança com Câncer (GACC-BA), que no último ano
acolheu 418 pacientes, sendo 88 na faixa etária de 0 a 6 anos. Embora funcione como casa de apoio, a instituição amplia
sua atuação para além da oferta de alimentação e hospedagem, garantindo
acesso completo ao tratamento, inclusive com transporte até o hospital, além de
serviços como fisioterapia, apoio psicológico e assistência social, voltados
tanto para as crianças quanto para suas famílias.
Foto: gacc-ba
De
acordo com o presidente do GACC-BA, Roberto Sá Menezes, os serviços oferecidos
pela instituição buscam tornar
esse período menos
doloroso, por meio de
atividades educativas, culturais e lúdicas, evitando a interrupção dos estudos
e contribuindo para o desenvolvimento e para oportunidades futuras.
Por outro lado, ele ressalta que, embora existam políticas públicas
voltadas à infância, o acesso a esses
recursos ainda enfrenta
forte burocracia. Ele destaca que instituições como o GACC-BA precisam
lidar com exigências excessivas e lentidão na liberação de verbas, o que
dificulta a execução de projetos e, muitas vezes, desestimula a busca por
recursos públicos. Para ele, a legislação garante direitos, mas a efetivação
ainda esbarra em entraves administrativos.
Assim
também, destaca a presidente da Sociedade Brasileira de Oncologia Pediátrica
(SOBOPE), Mariana Bohns Michalowski. “Houve avanços importantes nas últimas décadas. Muitos serviços já
incorporam ações de humanização, apoio psicossocial, atividades lúdicas, classe
hospitalar, acompanhamento multiprofissional e atenção à família. No entanto,
essa realidade ainda é heterogênea no Brasil”.
Para
Mariana Michalowski, “o acesso a essas
estratégias varia conforme
a região, a estrutura do serviço, a disponibilidade
de equipes multiprofissionais e a articulação com as redes de saúde e educação.
Portanto, embora existam boas iniciativas, ainda não se pode dizer que essa
incorporação ocorra de forma plenamente suficiente e uniforme em todo o país”.
Nesse contexto, conforme destacado pelos especialistas, é fundamental
um olhar rigoroso da sociedade como um todo, para fomentar a visibilidade a
Organizações não Governamentais (ONGs), com o propósito de atrair a atenção
necessária para políticas públicas que, de fato, sejam praticadas em favor da
educação na primeira infância.
